“Queremos afirmar o Alentejo como uma das grandes regiões vitivinícolas do mundo”

Responsáveis por quase 1,45 mil milhões de euros gerados para a economia nacional e por mais de 21 mil empregos, os Vinhos do Alentejo querem agora dar um novo salto. O Plano Estratégico 2026-2031 da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) aposta na valorização da produção, na sustentabilidade, na inovação e na internacionalização, com a meta de duplicar as exportações até ao final da década. Luís Sequeira, presidente da CVRA, em entrevista ao jornal ‘a defesa’, explica a visão que pretende afirmar o Alentejo entre as grandes regiões vitivinícolas do mundo.

      Rosário Silva

O estudo da NOVA SBE, recentemente apresentado, conclui que os Vinhos do Alentejo geram quase 1,45 mil milhões de euros para a economia portuguesa e acrescentam cerca de 673 milhões de euros ao PIB. O que significam estes números para a região e para o setor?

Estes números são, acima de tudo, motivo de orgulho e refletem o peso económico e a vitalidade da nossa fileira vitivinícola. Resultam do trabalho de milhares de pessoas no campo e nas adegas, que todos os dias contribuem para fazer o país crescer. Quando falamos de mais de 1,45 mil milhões de euros gerados, falamos de uma atividade com forte efeito multiplicador: por cada euro produzido pelo setor do vinho, são criados mais de cinco euros na economia nacional. Na prática, isto traduz-se em 269 milhões de euros em remunerações que chegam diretamente às famílias e em mais de 21 mil postos de trabalho que mantêm a região dinâmica e com futuro.

O Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo 2026-2031 define metas ambiciosas. Qual é a principal transformação que pretende alcançar nos próximos cinco anos?

A nossa grande ambição é afirmar o Alentejo como uma das grandes regiões vitivinícolas do mundo. Mas não queremos ser apenas vinho. Assumimos uma visão integrada de território, onde o vinho se cruza com o azeite, a gastronomia, o enoturismo e a cultura. O objetivo é valorizar o Alentejo como uma experiência completa e coerente, capaz de gerar maior reconhecimento e valor para toda a região.

Tem afirmado que o objetivo não passa por vender mais vinho, mas por criar mais valor. Como é que a região pode crescer sem aumentar significativamente a produção?

O nosso crescimento assenta na premiumização. O consumo global de vinho está a diminuir, por isso o foco é garantir que a nossa excelência é devidamente reconhecida e paga de forma justa. Prevemos um crescimento de 41,1% no volume de negócio até 2030, o que representa mais 158,9 milhões de euros para a economia regional. Este resultado alcança-se através da valorização da marca coletiva e do facto de termos quase 100% da produção certificada como DOP ou IGP. O objetivo é simples: garantir que cada garrafa transporta um valor acrescentado superior.

A CVRA quer duplicar as exportações até 2030. O que distingue hoje os Vinhos do Alentejo nos mercados internacionais e onde estão as maiores oportunidades de crescimento?

A nossa força está na autenticidade e na consistência da qualidade. O Alentejo é hoje líder nacional em valor de vinhos certificados e afirma-se pela capacidade de conjugar modernidade com tradição. A sustentabilidade, a certificação e a nossa herança — como o Vinho de Talha, com mais de dois mil anos de história — são fatores distintivos nos mercados internacionais. Há uma procura crescente por produtos com origem, identidade e verdade, e é aí que o Alentejo se destaca.

Brasil, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá foram identificados como mercados prioritários. Que estratégia está a ser desenhada para reforçar a presença da região nestes destinos?

Para conquistar destinos como o Brasil, EUA ou Reino Unido, temos de ser cirúrgicos. A nossa estratégia passa por robustecer a marca coletiva “Vinhos do Alentejo” como um selo de confiança global. Queremos levar o Alentejo ao mundo, mas também trazer o mundo ao Alentejo através do enoturismo, transformando cada visitante num embaixador da nossa região. E para sermos precisos nestas escolhas, contamos com ferramentas que mais ninguém tem.

A plataforma Data+, agora apresentada pela CVRA, foi descrita como uma ferramenta inovadora à escala mundial. De que forma este conhecimento pode ajudar os produtores a tomar melhores decisões?

A plataforma Data+ permite que os produtores tomem decisões mais informadas e estratégicas, com base em dados concretos e não apenas na perceção do mercado. Reúne mais de cinco milhões de dados sobre produção e comercialização, com um histórico que remonta a 1989, algo único em Portugal.Esta base de informação permite acompanhar a evolução dos mercados com um nível de detalhe sem precedentes, analisando tendências por sub-região, casta ou país de exportação. Com isso, os produtores conseguem antecipar movimentos de consumo e ajustar de forma mais eficaz as suas estratégias comerciais, produtivas e de internacionalização.O resultado é uma gestão mais precisa e mais alinhada com a realidade dos mercados, reforçando a competitividade dos Vinhos do Alentejo num contexto cada vez mais exigente.

O Alentejo tem sido frequentemente apontado como uma região pioneira em matéria de sustentabilidade. Que novos desafios se colocam hoje à vitivinicultura alentejana, sobretudo num contexto de alterações climáticas?

O desafio é a resiliência e a adaptação com base na ciência e inovação. Já somos pioneiros com o Programa de Sustentabilidade (PSVA), onde os nossos produtores já reduziram o consumo de recursos entre 20% e 30%. O futuro exige agora uma aposta reforçada no pilar da Investigação e Desenvolvimento (I&D), investindo em novas tecnologias, na digitalização e na robotização das vinhas para sermos mais eficientes e preservarmos a nossa biodiversidade.

A gestão da água é uma preocupação crescente para toda a agricultura. Como encara este desafio no caso particular da vinha e dos vinhos do Alentejo?

A água é o nosso recurso mais precioso e a sua gestão é uma prioridade absoluta. O Alentejo está a liderar pelo exemplo: os nossos produtores certificados já utilizam, em média, apenas 2,47 litros de água por cada litro de vinho produzido. Estamos muito à frente da média nacional e vamos continuar a investir em tecnologias de precisão para garantir que cada gota conta e que a nossa produção é ambientalmente viável e resiliente.

O setor do vinho atravessa um período de mudança, com alterações nos hábitos de consumo em vários mercados. Como devem os produtores adaptar-se a esta nova realidade?

Adaptar-se não é perder a essência, é valorizá-la. O mercado quer vinhos com origem e qualidade garantida. Com o Alentejo a representar já 16,8% da produção nacional de DOP e 19% de IGP, estamos no caminho certo. Os produtores devem focar-se em criar valor em cada garrafa, respondendo a um consumidor que bebe menos, mas que exige saber de onde vem o vinho e como foi feito.

O estudo apresentado mostra que a fileira vitivinícola sustenta mais de 21 mil postos de trabalho. Que papel pode continuar a desempenhar na criação de riqueza e na fixação de população no interior?

O setor do vinho é a espinha dorsal do Alentejo. Ao sustentarmos mais de 21 mil empregos diretos e assegurarmos 269 milhões de euros em salários, estamos a dar razões para as pessoas ficarem aqui. Quando investimos no enoturismo ou em novas tecnologias, estamos a criar um Alentejo onde os nossos jovens podem ter futuro. Fixar a população é o resultado natural de uma economia que gera valor e bem-estar em todo o território.

Quando olha para o Alentejo vitivinícola de hoje, qual considera ser o maior desafio e, ao mesmo tempo, a maior oportunidade para a próxima década?

O maior desafio é a adaptação climática, mas é precisamente aí que reside a nossa maior oportunidade. Se continuarmos a liderar na sustentabilidade e no conhecimento digital, como estamos a fazer com o Data+, o Alentejo será reconhecido mundialmente não apenas pelo seu vinho de excelência, mas como o modelo global de viticultura moderna, resiliente e autêntica. Como diz o nosso plano: chegaremos às estrelas, ultrapassando as dificuldades.

Foto | Vinhos do Alentejo

pt_PTPortuguese

Partilhar

Caro leitor, partilhe esta notícia nas suas redes sociais.