Estudo da consultora Consulai revela um setor mais produtivo e mecanizado, mas cada vez mais dependente de trabalhadores estrangeiros e envelhecido

O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola do país, 54,7%, mas emprega apenas 11,3% da mão de obra do setor, confirmando um modelo assente em explorações de grande escala, altamente mecanizadas e com forte incorporação tecnológica. Esta é uma das principais conclusões do estudo sobre a evolução do trabalho agrícola em Portugal, que aponta para uma transformação estrutural do setor nas últimas décadas.

A análise mostra que a agricultura portuguesa produz hoje mais com menos trabalhadores. Nas últimas três décadas, o volume de trabalho caiu de mais de 430 mil para cerca de 220 mil trabalhadores a tempo completo, ao mesmo tempo que o valor gerado aumentou de forma consistente, permitindo mais do que duplicar a produtividade.

Apesar desta redução, o emprego agrícola não desapareceu, transformou-se. O número de pessoas empregadas estabilizou entre 165 mil e 180 mil nos últimos anos, com uma quebra acentuada do trabalho familiar e um crescimento do trabalho assalariado, que já representa cerca de 40% do total.

Um dos dados mais marcantes do estudo da Consulai, é o peso da mão de obra estrangeira: mais de 40% dos trabalhadores agrícolas são imigrantes, um valor que quadruplicou desde 2014 e que não tem paralelo noutros setores da economia. Em culturas intensivas e sazonais, esta força de trabalho é considerada essencial para garantir os picos de produção.

Curiosamente, os trabalhadores estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos nacionais: 7,5% têm ensino superior, face a 2,7% dos portugueses, contribuindo para a crescente profissionalização do setor.

Os salários também têm vindo a subir. Em dez anos, a remuneração média mensal aumentou cerca de 50%, passando de 660 para perto de mil euros, ainda assim, significativamente abaixo da média nacional, que ronda os 1.742 euros.

O estudo destaca ainda fortes assimetrias regionais. Enquanto regiões como o Algarve ou o Oeste registam produtividades superiores a 5.200 euros por hectare, associadas a maior intensidade de trabalho, o Alentejo evidencia uma lógica de extensividade e mecanização.

Entre os principais desafios identificados está o envelhecimento da mão de obra. A idade média dos trabalhadores agrícolas subiu de 46 anos, em 1989, para 59 anos, em 2023, ao mesmo tempo que o trabalho familiar diminuiu mais de 60%, sinalizando falta de renovação geracional.

Na área da segurança, registou-se uma redução de cerca de 20% nos acidentes de trabalho entre 2014 e 2023, mas a taxa de mortalidade continua elevada, com 0,19% dos acidentes a resultarem em morte, uma das mais altas entre os principais setores económicos.

O estudo aponta ainda para um futuro cada vez mais tecnológico. A agricultura tende a integrar automação, sensores e inteligência artificial, substituindo tarefas manuais e exigindo trabalhadores com competências técnicas e digitais.

Perante este cenário, os autores defendem a necessidade de políticas públicas e estratégias empresariais alinhadas com esta nova realidade, onde produtividade, qualificação e sustentabilidade social são fatores decisivos para o futuro do setor agrícola em Portugal.

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