Portel entre a identidade e o futuro:
“Num território de baixa densidade, ninguém pode sentir-se esquecido”

A presidente da Câmara de Portel diz que o concelho enfrenta os desafios do envelhecimento e da desertificação apostando na proximidade, na valorização do montado, no turismo ligado ao Alqueva e no reforço das respostas sociais. Em entrevista ao jornal ‘a defesa’, Maria Luísa Farinha considerou, ainda, que a visita pastoral do Arcebispo de Évora serviu para aproximar ainda mais a comunidade.

    Rosário Silva

Este é o seu primeiro mandato à frente da Câmara de Portel. Que prioridades definiu para um concelho marcado pelo envelhecimento e pela baixa densidade populacional?

Num concelho, como Portel, o envelhecimento e a baixa densidade populacional, são fatores indissociáveis à maioria dos concelhos de interior do País, cuja responsabilidade não pode ser unicamente imputada aos municípios. Depende essencialmente de políticas nacionais e regionais, no entanto, também existem medidas que os municípios podem e devem adotar para minimizar esta tendência. No Município de Portel essas medidas têm vindo a ser implementadas e as nossas prioridades estratégicas continuarão a estar focadas na qualidade de vida, na fixação de pessoas e na valorização dos recursos locais, nomeadamente, na oferta de serviços públicos de qualidade e proximidade seja na educação, na saúde, na cultura, no lazer; no apoio à habitação, com a criação de novos loteamentos habitacionais para jovens casais a preços acessíveis; no apoio aos mais idosos, com uma cobertura de respostas de centro de dia e apoio domiciliário em todas as freguesias em colaboração com as instituições particulares de solidariedade social existentes no concelho; com programas de envelhecimento ativo no âmbito da universidade sénior; nas famílias, com apoios à natalidade, nos apoios na aquisição dos cadernos de atividades, nos transportes escolares, no apoio a todos os alunos do ensino superior residentes no concelho; nos investimentos em espaços culturais, desportivos e de lazer; no apoio ao comércio local com a aquisição de bens e promoção turística da restauração e hotelaria; na valorização da identidade e cultura do concelho; transformando a baixa densidade numa oportunidade, promovendo produtos de qualidade com forte identidade, como vinho, azeite, queijos, enchidos, artesanato ou gastronomia.

Portel afirma-se como “Capital do Montado”. Que medidas concretas estão a ser tomadas para proteger e valorizar este património económico e ambiental?

Num concelho como Portel, o montado não é apenas um ecossistema único. É também um modelo de equilíbrio entre natureza, economia e tradição. São necessárias medidas como a proteção e regeneração do montado, a valorização dos produtos associados, promover um turismo de natureza e identidade territorial, realização de eventos temáticos como a Feira do Montado. A Feira do Montado tem vindo a consolidar-se como pólo de atração de muitos milhares de visitantes, contribuindo de forma decisiva para uma maior visibilidade do montado em todas as suas dimensões e colocando na ordem do dia a importância da sua defesa e valorização. Num tempo em que a sustentabilidade é um desafio global, Portel afirma-se como um concelho que valoriza os recursos naturais, promove a gestão responsável da paisagem e aposta em práticas que garantem a preservação do montado para as gerações futuras. Este compromisso com a sustentabilidade está presente em cada iniciativa que promovemos. Seja na valorização dos produtos endógenos, na defesa da biodiversidade ou na dinamização de atividades económicas compatíveis com a proteção ambiental, procurando sempre construir soluções que conciliem o desenvolvimento e a responsabilidade. A economia local é, também ela, beneficiária direta da vitalidade desta feira. Os nossos produtores, artesãos, empresas agroflorestais, restaurantes, alojamentos e serviços encontram aqui um espaço privilegiado para divulgar o seu trabalho, estabelecer novas parcerias e reforçar a sua presença no mercado.

A proximidade ao Lago Alqueva tem trazido novas oportunidades. O turismo está a crescer de forma equilibrada no concelho?

Sem dúvida que a proximidade ao Lago de Alqueva abriu portas a novas oportunidades e o Município tem tentado aproveitar da melhor forma a harmonia entre a natureza e a cultura.

A nova realidade proporcionada por Alqueva, tem possibilitado que, também do ponto de vista turístico, Portel tenha vindo a afirmar-se como um destino que une autenticidade, património e natureza. Quem nos visita descobre um concelho de paisagens únicas, gastronomia de excelência, tradições vivas e uma hospitalidade que nos distingue. Tudo temos feito para criar condições ao nível de infraestruturas, acessibilidades e equipamentos de apoio. São exemplos as três praias fluviais (Amieira, Alqueva e Oriola) a reabilitação das piscinas municipais com uma piscina de ondas, parques de caravanas, museus e centros de interpretação. Temos construído um programa de eventos que para além da promoção do concelho são motivo de atração de visitantes. Este investimento tem permitido fixar população, a reabilitação do parque habitacional, criação de pequenas empresas ligadas ao turismo rural, com crescimento gradual, captação de turismo e consequentemente dinamização da economia local. O aprofundar de uma estreita relação com o setor privado é o pilar central para transformar todo o potencial do Lago de Alqueva e do nosso património em valor económico sustentável.

Num território com forte ligação à terra, azeite, cortiça, vinho, como é que a autarquia pode ajudar a fixar população mais jovem?

A fixação de jovens acontece quando há condições reais de vida, rendimento e perspetiva de futuro. Num território como Portel, a vantagem é clara: há recursos como o azeite, a cortiça., o vinho, serviços públicos de qualidade, qualidade de vida, Alqueva… O desafio é transformar esses recursos em oportunidades. Uma das nossas prioridades tem sido contribuir para uma verdadeira igualdade de oportunidades no acesso à educação e formação. Tudo temos feito para garantir serviços essenciais como creches, escolas, cuidados de saúde. Apostámos em tornar as nossas freguesias atrativas dotadas de espaços verdes, equipamentos infantis e equipamentos desportivos. Vamos continuar a investir no associativismo, na cultura, no desporto e no lazer. Tudo faremos para criar condições para a requalificação urbana e construção de novas habitações.

A visita pastoral do Arcebispo de Évora passou agora pelo concelho. Que significado, no seu entender, tem este momento para a comunidade local?

Para a comunidade de Portel, a visita do Sr. Arcebispo de Évora é um gesto de proximidade, um reforço da identidade local e um momento de encontro que vai muito além da dimensão religiosa. Num território onde a coesão é essencial, estes momentos têm um impacto mais profundo do que à primeira vista pode parecer. Num território de baixa densidade, onde o isolamento pode ser uma realidade, este tipo de visita reforça o sentimento de pertença, a ligação entre as pessoas e transmite a ideia de que ninguém está esquecido. Mais do que celebrar, estas visitas são também momentos de contacto direto com a realidade local ,permite escutar as preocupações da população, o
contacto com as instituições sociais, IPSS, centros paroquiais, permitem uma reflexão sobre desafios como envelhecimento, solidão e pobreza. Ou seja, não é só uma visita, é também um diagnóstico humano do território.

Que mensagem sente que esta visita pode deixar a um concelho com desafios sociais, mas também com forte identidade?

A mensagem que uma visita pastoral pode deixar não é tanto uma “frase”, mas um sinal coletivo. Num concelho com desafios sociais, mas com identidade forte como Portel, há ideias que tendem a ficar se forem bem aproveitadas. Ninguém fica para trás, uma comunidade mede-se pela forma como cuida dos mais idosos, valorizando redes de proximidade, combatendo o isolamento e reconhecendo o trabalho de quem cuida. A visita também lembra que aquilo que define o concelho, as tradições, os valores e o sentido de comunidade é autenticidade. Mais do que diagnóstico, estas visitas deixam um apelo, cada um tem um papel na construção do futuro coletivo: às instituições, pede-se responsabilidade e proximidade, aos cidadãos, participação e entreajuda aos dirigentes locais, capacidade de unir e governar. A visita do Arcebispo de Évora pode deixar uma mensagem simples, mas exigente: uma comunidade com desafios só resiste se for coesa e uma comunidade com identidade forte só cresce se souber transformá-la em futuro.

Existe articulação entre a autarquia e a Igreja, seja no apoio às populações mais vulneráveis, seja na defesa do património, por exemplo?

Sim, existe uma articulação próxima entre a Autarquia e a Igreja em Portel. Num concelho como Portel, essa articulação não é apenas desejável, é muitas vezes determinante para chegar onde sozinhos nunca chegaríamos. A articulação entre a autarquia e a Igreja no concelho de Portel tem sido uma parceria estratégica que assenta em duas frentes principais: o apoio social à população e a recuperação do património religioso. No que diz respeito à defesa e valorização do património, grande parte do património religioso, exige cooperação, tal como sempre fizemos e continuaremos a fazer, com protocolos com as nossas Paróquias que tem permitido a conservação e reabilitação de Igrejas, como recentemente aconteceu com a Igreja de Vera Cruz, Igreja da Matriz em Portel, Igreja de São Bartolomeu do Outeiro e ao longo dos últimos anos com todas as igrejas do concelho. Em Oriola a autarquia construiu uma nova Igreja. Em Monte do Trigo construiu o Centro Social (Lar, Centro de Dia, Creche e Jardim de Infância) concedendo a sua gestão ao Centro Paroquial. Estou certa que esta parceria irá consolidar-se e, entre muitos desafios que temos pela frente, vamos continuar a colaborar na conservação e reabilitação do património religioso, nas respostas sociais à população e em futuros projetos que possam potenciar o valor religioso, histórico, cultural e artístico de Igrejas como a de Vera Cruz ou São Paulo em Portel.

Portel tem um património histórico relevante, como o Castelo de Portel. A valorização cultural pode ser também uma forma de reforçar a coesão social?

A valorização do património histórico, com destaque para o Castelo de Portel e para a Igreja de Vera Cruz, é um instrumento decisivo para reforçar a coesão social porque cria identidade comum, envolve a população, gera oportunidades económicas e transforma espaços históricos em lugares vivos. O património histórico e projetos para a sua valorização contribuem para fixar população, atrair investimento, dinamizar o turismo e valorizar os recursos locais. Valorizando e preservando o património cultural não estamos apenas a salvaguardar os edifícios. Estamos a fortalecer as relações sociais, a identidade local e o sentimento de comunidade.

A liderança autárquica, sobretudo em territórios pequenos, exige proximidade. Como descreve a sua relação com a população?

Num concelho como Portel, a proximidade é uma condição essencial para governar bem. A relação com a população constrói-se todos os dias, no contacto direto, na escuta e, sobretudo, na capacidade de dar resposta. A minha relação com a população foi sendo construída ao longo da minha vida. Aqui nasci e desde muito jovem que me envolvi no movimento associativo e participei em projetos comunitários de caráter social, desportivo e de desenvolvimento local. Descrevo a minha relação com a população como próxima, disponível para ouvir, escutar, de uma forma transparente, sincera, desprovida de interesses e sempre na procura de soluções para os seus problemas e na resposta às suas necessidades. Num território pequeno, as pessoas conhecem-nos pelo nome, e nós também, e isso obriga a uma liderança mais humana, mais responsável e mais presente.

Que Portel gostaria de deixar no final deste seu primeiro mandato?

Gostaria de concretizar os projetos, investimentos e medidas previstos no meu programa eleitoral. Gostaria de deixar um Portel mais desenvolvido, mais próximo das pessoas e com melhores condições para quem cá vive e para quem nos visita. Um concelho onde os jovens tenham mais oportunidades para ficar, trabalhar e construir família, onde os idosos sintam mais apoio e qualidade de vida, e onde as freguesias sejam tratadas com equilíbrio e atenção.

Quero um Portel mais dinâmico economicamente, capaz de atrair investimento, apoiar o comércio local, valorizar o turismo e o nosso património. No final deste mandato, gostaria que as pessoas sentissem que houve trabalho, seriedade e proximidade.

Em suma, gostaria de deixar um concelho onde tenhamos qualidade de vida e dê gosto viver.

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