Revista das Misericórdias transforma memória em património vivo e quer resistir ao tempo, como os livros de onde herdou o nome
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Antes de ser revista, “Lembranças” foi caderno. Ou melhor, livros. Livros onde se anotava o que não podia ser esquecido.
Foi por aí que começou José Calado, historiador e editor da publicação, ao apresentar o segundo número da revista, na Igreja da Santa Casa da Misericórdia de Évora (SCME), precisamente no Dia Mundial do Livro. O nome, explicou, remete para os antigos “Livros de Lembranças”, onde, nas reuniões das Misericórdias, se registavam os assuntos “para não se esquecer”.
Mas há um segundo sentido, mais próximo da terra. “Lembranças” é também memória, identidade, aquilo que se guarda para não se perder. E é nesse cruzamento entre história e pertença que nasce o projeto.
A ideia ganhou forma durante a pandemia, num tempo de pausa que permitiu pensar o essencial. Se as Misericórdias guardam alguns dos mais ricos arquivos do país, muitas vezes com documentos anteriores à sua própria fundação, fazia sentido criar um espaço comum para partilhar esse património.
Hoje, a revista reúne 29 Misericórdias, num esforço coletivo que José Calado resume como essencial: “agregar, unir e juntar pessoas em prol de objetivos comuns”. Ao todo, as duas primeiras edições já somam cerca de 60 artigos, assinados por autores diversos, de académicos a cidadãos comuns, num formato aberto, onde cada instituição escolhe como contar a sua história.
Mais do que uma revista, trata-se de um volume pensado para durar. Num tempo em que os suportes digitais se tornam rapidamente obsoletos, o livro continua a oferecer uma garantia rara: permanência. É essa consciência de que “o que é publicado fica”, que atravessa o projeto e lhe dá sentido.
A partir daqui o olhar passou para a casa que acolheu o lançamento. O provedor da SCME, Francisco Lopes Figueira, destacou a importância da iniciativa, sublinhando que, pela primeira vez, se está a dar “visibilidade pública” ao trabalho desenvolvido nesta área.
“Queremos mostrar à comunidade portuguesa e internacional o património que as Misericórdias têm à sua guarda, a preocupação com a sua conservação e valorização”, afirmou. A lógica é simples: cada instituição escolhe uma atividade relevante e transforma-a em artigo, contribuindo para um retrato coletivo.
A adesão tem sido significativa. Com cerca de 60 Misericórdias envolvidas nas duas primeiras edições e participação de todos os secretariados regionais, o projeto entra agora numa fase de consolidação. “Já tivemos que fazer seleção e guardar artigos para o próximo número”, revelou o provedor, apontando para uma terceira edição em preparação.
Além da dimensão nacional, abre-se também a possibilidade de projeção internacional, no contexto de Évora Capital Europeia da Cultura 2027. A Misericórdia de Évora já apresentou propostas para integrar as Misericórdias nesse programa, com o objetivo de dar a conhecer o seu património a novos públicos.
E há um efeito inevitável: a visibilidade. “Só não nos tornamos visíveis quando estamos parados e escondidos”, afirmou Francisco Lopes Figueira, reconhecendo que iniciativas como esta ajudam a projetar o trabalho das instituições, incluindo a própria Misericórdia de Évora.
A encerrar a sessão, Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), reforçou a importância do projeto, sublinhando que a salvaguarda do património é um dos pilares da ação destas instituições, a par da área social e da saúde.
Mais do que edifícios ou objetos, trata-se de identidade. “É este património que marca a nossa natureza”, afirmou, apontando para igrejas, arquivos e acervos que atravessaram séculos e ajudam a construir uma consciência coletiva. E deixou exemplos que parecem saídos de um arquivo vivo: documentos escondidos em encadernações, pinturas ocultas sob outras telas, tesouros preservados quase por acaso, no fundo, sinais de um património ainda por descobrir.
Nesse sentido, a revista “Lembranças” cumpre também uma função prática: partilha boas práticas, aproxima instituições e mostra como cada Misericórdia cuida do que tem à sua guarda. “Todas têm uma história para contar”, lembrou Manuel de Lemos.
E é talvez essa a ideia mais simples e mais forte de toda sessão de lançamento oficial da nova publicação: escrever hoje, para que amanhã ninguém tenha de adivinhar.
