Da Moita a Viana do Alentejo, vários dias de caminho culminam no Santuário de Nossa Senhora d’Aires, cruzando fé, tradição e emoção

*Rosário Silva

Ao fim da tarde, diante do Castelo de Viana do Alentejo, o ritmo abranda. Os cavalos param, o pó assenta, e o barulho das centenas de pessoas que ali aguardam, vai diminuindo. É ali, este ano, no dia 25 de abril, que se cumpre um dos momentos mais aguardados da romaria: o encontro, num altar improvisado, entre a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, vinda da Moita, e a de Nossa Senhora d’Aires.

Depois de dias de caminho, a chegada a Viana do Alentejo traz consigo sinais visíveis de cansaço, mas também de entrega. Há lágrimas discretas, abraços demorados, gestos simples que dizem mais do que palavras.

O acolhimento é feito pelo pároco, padre Luís Santos, numa breve celebração que marca este reencontro simbólico. A partir dali o último troço faz-se em conjunto, com a GNR à frente, entre cavalos, bandeiras ou promessas, até ao santuário, onde romeiros e animais ocupam o espaço numa imagem difícil de repetir fora deste contexto.

À noite, apesar do desgaste acumulado, há ainda lugar para o convívio e para iniciativas culturais. A romaria é também isso: uma partilha que se prolonga para além do percurso.

O encerramento aconteceu a 26 de abril, com uma missa campal presidida pelo bispo de Beja, D. Fernando Paiva, assinalando, assim, o fim oficial de mais uma edição, neste caso, a XXIV romaria.

Sinais de fé nas paredes

Mas é no interior do santuário que a dimensão da devoção se torna mais palpável. Nas paredes da chamada Casa dos Milagres acumulam-se centenas de ex-votos: fotografias antigas, vestidos, tranças de cabelo, pequenos objetos deixados ao longo de décadas. Testemunhos silenciosos de pedidos, agradecimentos e histórias pessoais que ali encontram lugar.

“Este é um santuário bastante antigo e de grande devoção, sobretudo para o Alentejo e para o sul do país”, sublinha o padre Luís Santos, apontando para esses sinais materiais de fé: “os ex-votos que existem no santuário mostram realmente esta grande devoção do povo à Nossa Senhora d’Aires”.

Ligada a essa tradição, está também a própria romaria. “Os agricultores vinham ao santuário para agradecer a Deus e à Nossa Senhora os frutos do campo”, recorda o pároco. Hoje, admite, a iniciativa ganhou novas leituras: “para muitos é um evento cultural, uma festa, ainda que mantenha este cariz religioso”.

Ainda assim, a dimensão espiritual não desapareceu. Ao longo da semana, a comunidade prepara a chegada com momentos de oração, celebrações e reflexão. “Há quem venha também por fé”, afirma, reconhecendo uma religiosidade que se transforma, mas não se perde.

A romaria a cavalo, retomada em 2001 após mais de setenta anos de interrupção, percorre cerca de 150 quilómetros pela antiga canada real, também conhecida como estrada dos espanhóis. Um caminho antigo, marcado por outras viagens e outras promessas. No fim, é esse cruzamento de tempos que permanece: o da tradição que resiste, o da festa que se reinventa e o da fé que, de forma mais visível ou mais discreta, continua a levar gente a caminho.

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