O calor já se faz sentir, os campos já ganharam os tons secos da estação e as autoridades afinam os últimos preparativos para os meses mais difíceis do ano. No Alentejo Central, quase 400 operacionais, dezenas de equipas especializadas, meios aéreos e uma estratégia de resposta rápida estão prontos para enfrentar a ameaça dos incêndios rurais.
Rosário Silva
Os dias ainda nem chegaram ao auge do verão, mas o calor já se instalou no Alentejo, o que nem sequer é novidade. As temperaturas elevadas que têm marcado as últimas semanas são um lembrete de que a época mais crítica dos incêndios rurais está à porta e de que, numa região onde o calor e a secura fazem parte da paisagem, a vigilância nunca é excessiva.
Enquanto os campos amadurecem sob o sol e a vegetação perde humidade, bombeiros, forças de segurança, proteção civil e restantes agentes de proteção e socorro preparam-se para uma batalha que se repete todos os anos, mas que nunca é exatamente igual à anterior.
No Alentejo Central, o Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR) foi desenhado para responder a esse desafio. Entre julho e setembro, período considerado mais crítico, poderão estar mobilizados até 393 operacionais e 99 veículos, apoiados por meios aéreos e por uma estratégia que aposta cada vez mais na rapidez da intervenção.
A lógica é simples: quanto mais cedo se ataca um incêndio, menores são as probabilidades de ele ganhar dimensão.
“O despacho imediato de meios de ataque inicial” e o “domínio dos incêndios na sua fase inicial” são, aliás, dois dos objetivos centrais definidos no Plano de Operações da Sub-Região do Alentejo Central, coordenado pelo Comando Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil.
Segundo explicou ao jornal a defesa o comandante sub-regional Fábio Pontes, a estratégia passa também pela antecipação do risco, através do pré-posicionamento de meios em função das condições meteorológicas e dos locais considerados mais vulneráveis.
“O objetivo é garantir a mobilização, prontidão e empenhamento dos meios disponíveis de forma eficiente e eficaz”, refere o responsável, sublinhando que a capacidade de resposta começa muito antes de surgir uma coluna de fumo no horizonte.
Uma resposta que começa antes das chamas
Ao contrário da perceção comum, o combate aos incêndios não começa quando o fogo deflagra. Começa muito antes. Uma parte importante do trabalho passa pela análise do risco, monitorização das condições meteorológicas, planeamento dos recursos disponíveis e preparação dos operacionais.
Nos últimos anos, as autoridades têm vindo a reforçar essa componente preventiva, procurando colocar meios onde existe maior probabilidade de ocorrência e reduzindo o tempo de resposta às situações de emergência.
“Os nossos operadores têm dois minutos para mobilizar os meios necessários”, explicou recentemente Fábio Pontes, destacando a importância do ataque inicial para evitar que uma ignição se transforme num incêndio de grandes proporções.
Numa época em que os incêndios tendem a ser mais rápidos, mais intensos e mais imprevisíveis, cada minuto pode fazer a diferença.
Quase 400 operacionais e dezenas de equipas especializadas
A estrutura operacional prevista para este ano mantém-se semelhante à dos últimos anos, mas continua a representar um esforço significativo de mobilização de meios.
Na fase Bravo, entre 15 e 31 de maio, estiveram disponíveis até 358 operacionais e 88 veículos. Durante o mês de junho, na fase Charlie, o dispositivo aumenta para 375 operacionais e 95 veículos. O maior reforço acontece na fase Delta, entre 1 de julho e 30 de setembro, quando o dispositivo poderá atingir os 393 operacionais e os 99 veículos.
Paralelamente, a sub-região dispõe durante todo o ano de 30 Equipas de Intervenção Permanente, distribuídas pelos 14 concelhos do Alentejo Central. Estas equipas profissionais dos corpos de bombeiros envolvem 150 operacionais e 30 veículos, assegurando uma capacidade permanente de resposta.
Durante a fase mais crítica, estas estruturas são reforçadas por 24 equipas especificamente integradas no DECIR, que acrescentam 96 operacionais e 28 veículos ao dispositivo.
Além dos meios terrestres, a região beneficia da cobertura de vários meios aéreos de ataque inicial. O helicóptero sediado no aeródromo municipal de Évora volta a estar operacional entre 15 de maio e 30 de setembro, mas o território é igualmente apoiado por aeronaves colocadas em Moura, Grândola, Portalegre e Montijo.
Sempre que a situação o justificar, podem ainda ser mobilizados helicópteros pesados e aviões de combate a incêndios de maior capacidade.
Serra d’Ossa continua sob atenção especial
Quando se fala em incêndios no distrito de Évora, é inevitável olhar para a Serra d’Ossa. A extensa mancha florestal que atravessa os concelhos de Estremoz, Redondo e Alandroal continua a ser uma das zonas que mais preocupam as autoridades devido às características do terreno e ao potencial de propagação do fogo.
Mas não é a única. As serras de Valverde e Monfurado, nos concelhos de Évora e Montemor-o-Novo, a zona de Portel e a Mata Nacional de Cabeção estão igualmente identificadas como áreas de risco acrescido.
Ainda assim, o histórico da região mostra que muitos incêndios têm origem em espaços agrícolas ou áreas de mato. “Normalmente a maior parte das ocorrências ocorrem sempre no início do verão, devido aos trabalhos agrícolas”, explica Fábio Pontes, lembrando que a atividade agrícola continua a representar um fator de risco significativo nesta altura do ano.
Mais formação para enfrentar incêndios cada vez mais complexos
Outra das apostas para 2026 passa pela formação dos operacionais. O número de ações de treino operacional aumentou de 325 para 428, abrangendo áreas como meteorologia aplicada aos incêndios rurais, gestão de operações, reconhecimento e avaliação da situação, condução fora de estrada e utilização de ferramentas manuais e mecânicas.
A preocupação não é apenas melhorar a eficácia do combate, mas também reforçar a segurança dos homens e mulheres que trabalham no terreno.
No plano operacional elaborado para este ano, a proteção da vida humana surge como prioridade absoluta. O documento determina que toda a cadeia de comando deve assegurar, em permanência, a segurança dos cidadãos e dos operacionais envolvidos nas missões de combate e socorro.
Num contexto em que os incêndios apresentam comportamentos cada vez mais extremos, esta preocupação assume especial relevância.
A prevenção continua a ser a melhor arma
Apesar da dimensão do dispositivo montado para os próximos meses, todas as entidades envolvidas convergem numa mesma ideia: nenhum meio será tão eficaz como a prevenção.
A limpeza dos terrenos, a manutenção dos acessos, o cumprimento das regras relativas às queimas e o cuidado durante os trabalhos agrícolas continuam a ser fatores decisivos para reduzir o número de ocorrências.
“A limpeza dos terrenos é o mais importante. Terrenos limpos e caminhos acessíveis são meio caminho andado para que haja menos incêndios e para que os operacionais trabalhem com mais segurança e mais eficácia”, sublinha Fábio Pontes.
À medida que o verão se aproxima e o calor aperta, o Alentejo volta a preparar-se para um dos seus maiores desafios anuais. Os meios estão definidos, os operacionais treinados e os planos preparados. Mas, numa região habituada a temperaturas extremas e a vastas extensões de território rural, a verdadeira diferença continuará a depender da conjugação entre vigilância, prevenção e capacidade de resposta. Porque, quando surge a primeira chama, cada minuto conta.
Foto | Bombeiros.pt
