Congregação presente em Vila Viçosa desde 1930 continua a servir comunidades da Arquidiocese de Évora, levando uma espiritualidade centrada no perdão, na reconciliação e na proximidade às populações
Rosário Silva
Há quase um século que os Missionários do Preciosíssimo Sangue marcam presença na Arquidiocese de Évora. Chegaram a Vila Viçosa em 1930 e, desde então, têm procurado viver o carisma legado por São Gaspar del Búfalo, fundador da congregação, colocando-se ao serviço da Igreja através da evangelização, da missão e do acompanhamento das comunidades.
Atualmente, a congregação mantém a sua presença em Vila Viçosa e em Proença-a-Nova. No Alentejo, os missionários asseguram o serviço pastoral em várias paróquias dos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, numa realidade marcada pelo envelhecimento da população e pela dispersão geográfica das comunidades.
O Padre Luís Filipe Fernandes, sacerdote dos Missionários do Preciosíssimo Sangue, explica que a espiritualidade da congregação nasce do mistério central da fé cristã: o amor de Cristo manifestado na cruz.
“A nossa espiritualidade está centrada no sangue de Cristo, neste amor total com que Jesus entrega a sua vida pela humanidade. Somos chamados a viver essa mesma entrega e esse mesmo amor ao serviço dos outros”, afirma.
Fundada em Itália, no início do século XIX, a Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue está hoje espalhada por vários continentes. Além do trabalho paroquial, desenvolve missões populares, promove retiros espirituais e iniciativas de formação cristã, estando também presente em regiões mais pobres do mundo, onde alia a evangelização à promoção humana e social.
Na Arquidiocese de Évora, a missão concretiza-se diariamente através do acompanhamento das comunidades de São Bartolomeu de Vila Viçosa, Santa Catarina de Pardais, Santa Ana de Bencatel e de diversas localidades do concelho do Alandroal, entre elas Santiago Maior, Montes Juntos e Capelins.
Mais do que assegurar celebrações e sacramentos, os missionários procuram cultivar uma presença próxima das pessoas, especialmente nas aldeias mais pequenas e afastadas dos centros urbanos.
“Há comunidades muito isoladas e sentimos que a missão passa por estar com as pessoas, escutá-las e caminhar com elas”, refere o sacerdote.
Foi com esse espírito que, durante o mês de maio, promoveram a oração do terço em espaços públicos de algumas localidades onde nem sequer existe uma capela. Pequenos gestos que procuram manter viva a fé e fortalecer os laços comunitários.
Atualmente, a comunidade dos Missionários do Preciosíssimo Sangue em Vila Viçosa é constituída por dois sacerdotes. Além do trabalho desenvolvido na Arquidiocese de Évora, um dos religiosos presta serviço pastoral na vizinha Diocese de Badajoz, exercendo funções de capelão hospitalar.
Para o Padre Luís Filipe Fernandes, esta colaboração traduz bem a vocação missionária da congregação, que procura responder às necessidades da Igreja onde quer que seja chamada a servir.
Além das responsabilidades paroquiais, o sacerdote desempenha há mais de vinte anos as funções de Assistente Espiritual Regional do Corpo Nacional de Escutas na Arquidiocese de Évora. Um serviço que considera complementar da missão evangelizadora da Igreja.
“O escutismo ajuda os jovens a crescer como pessoas, como cristãos e como cidadãos. Procura formar homens e mulheres capazes de deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram”, sublinha.
A questão das vocações é outro dos desafios que marcam a vida da Igreja e das congregações religiosas. O sacerdote reconhece que a Europa atravessa um período particularmente difícil neste campo, mas entende que o fenómeno deve ser analisado num contexto mais amplo.
“Mais do que uma crise de vocações, vivemos uma crise de valores, de referências e de estilos de vida”, considera.
No caso do interior do país, acrescenta, a diminuição das vocações está também ligada ao despovoamento. “Muitas regiões que no passado eram viveiros de vocações perderam população. Não é apenas uma questão de faltarem vocações; muitas vezes faltam pessoas.”
Apesar das dificuldades, mantém uma visão serena e esperançosa. Acredita que a Igreja continuará a encontrar caminhos para cumprir a sua missão e que o Espírito Santo continua a suscitar respostas generosas.
Essa esperança encontra eco noutras regiões do mundo. Enquanto a Europa enfrenta um declínio vocacional, países como a Tanzânia ou a Guiné-Bissau registam um crescimento significativo. Na Tanzânia, a congregação ordena anualmente vários sacerdotes, alguns dos quais são enviados para missões noutras partes do mundo.
Num contexto internacional marcado por guerras, tensões sociais e divisões, o Padre Luís Filipe Fernandes considera que a espiritualidade do Preciosíssimo Sangue tem hoje uma atualidade particular.
“A nossa espiritualidade é uma espiritualidade do perdão e da reconciliação. Num mundo marcado pela violência e pelo individualismo, recorda-nos que somos todos irmãos e que a paz só será possível quando aprendermos a caminhar juntos.”
Quase cem anos depois da sua chegada a Vila Viçosa, os Missionários do Preciosíssimo Sangue continuam, assim, a escrever uma história de presença discreta, mas persistente, feita de proximidade, serviço e compromisso com as comunidades que lhes foram confiadas.
