Curso Profissional de Técnico de Apoio Psicossocial do Agrupamento de Escolas Severim de Faria apresentou manual inovador desenvolvido no âmbito do Erasmus+, em parceria com instituições de Portugal e Espanha
Rosário Silva
À volta de uma mesa, alunos do Curso Profissional de Técnico de Apoio Psicossocial do Agrupamento de Escolas Severim de Faria, em Évora, organizam imagens e objetos em categorias simples, como frutas ou bens pessoais. Sob a orientação do professor Eduardo Rodrigues, da Escola Técnica de Apoio Psicossocial de Lisboa (ETAPL) a atividade parece um jogo de classificação. Mas é, na verdade, um exercício de estimulação cognitiva aplicado a pessoas com demência.
Entre caixas e cartões, alunos e utentes participam numa dinâmica que trabalha áreas como a atenção, a memória, a perceção e a linguagem. “Hoje escolhemos uma atividade relacionada com a área da perceção, chamada classificação de imagens”, explicou o docente, enquadrando o exercício que envolve a associação de imagens a diferentes categorias pré-definidas.
A atividade integra o projeto europeu “RealWorld Dementia Training Tool”, desenvolvido no âmbito do programa Erasmus+, em parceria com a ETAPL, o Instituto Salvador Seguí e o Instituto Montserrat Roig, de Barcelona (Espanha), que culminou na criação de um manual pedagógico inovador dedicado à prevenção, sensibilização e intervenção na área da demência.
O recurso, concebido ao longo de dois anos, destina-se sobretudo a apoiar a formação dos alunos do curso profissional, mas também pode ser utilizado por cuidadores formais e informais em contexto institucional ou domiciliário.
“O objetivo não é que este seja um livro para ficar numa estante. É para ser usado, para ter desgaste, para ser aplicado no terreno”, sublinhou Eduardo Rodrigues. O docente destacou ainda que o manual resulta de um processo colaborativo entre escolas, técnicos e organizações da sociedade civil, defendendo que só faz sentido se tiver utilidade prática. “Se fosse só interessante para nós, não servia para nada. Só faz sentido se for útil para as pessoas”, acrescentou.
Também o diretor do curso, Aires Carvalho, sublinhou a importância da iniciativa para a formação dos alunos e para o trabalho das instituições parceiras. “Este é um acontecimento muito importante para a escola e para os nossos parceiros”, afirmou, destacando o contacto direto com a realidade social. “O que procuramos é que a escola seja um laboratório para a vida real, onde os alunos possam experimentar e aplicar os conhecimentos na prática”, referiu.
No encontro esteve igualmente em destaque a dimensão social da demência e o impacto do envelhecimento da população. A diretora do agrupamento Ana Pires, recordou que o isolamento é um dos fatores que mais contribui para o agravamento da doença, sublinhando a importância da atividade mental e da participação comunitária. “As pessoas que se mantêm ativas conseguem viver com mais dignidade e melhor saúde mental”, referiu, destacando o papel das universidades seniores e de iniciativas comunitárias na melhoria da qualidade de vida.
O projeto contou ainda com a participação de várias escolas e instituições europeias, envolvendo mais de uma centena de alunos em Portugal e cerca de 180 estudantes no total, incluindo os parceiros espanhóis.
Segundo os responsáveis, a colaboração internacional revelou-se fundamental para a construção do manual, permitindo cruzar experiências e validar propostas pedagógicas em diferentes contextos.
“Em diferentes escolas e países, as propostas dos alunos foram muito semelhantes, o que reforça a validade do projeto”, destacaram os parceiros espanhóis, sublinhando a importância da cooperação entre instituições.
Durante a apresentação, os alunos foram desafiados a participar em atividades práticas com utentes de instituições como a Casa João Cidade e a ERPI da Cáritas Arquidiocesana de Évora, numa experiência que permitiu testar o manual em contexto real.
Mais do que um exercício escolar, o projeto “RealWorld Dementia Training Tool” afirma-se como uma ferramenta de formação e intervenção social, aproximando os jovens de uma realidade cada vez mais presente: o envelhecimento e as doenças neurodegenerativas.
Entre jogos, interação e aprendizagem prática, a escola abre assim portas a uma formação que cruza conhecimento técnico com empatia e responsabilidade social, preparando futuros profissionais para cuidar não apenas de corpos, mas também de memórias.
Foto | AESF
