Na sua primeira grande carta ao mundo, o Papa pede que a tecnologia esteja ao serviço das pessoas, critica a concentração de poder nas mãos de poucos e defende uma cultura de paz, justiça social e verdade na era digital

Rosário Silva

A inteligência artificial pode ajudar a humanidade, mas também pode aprofundar desigualdades, alimentar guerras e tornar o mundo mais frio e desumano. É este o alerta deixado pelo Papa Leão XIV na sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, publicada no dia em que se assinalam os 135 anos da histórica “Rerum novarum”, de Leão XIII.

Ao longo do documento, o novo Pontífice procura refletir sobre os desafios éticos da revolução digital, insistindo que a tecnologia não é má em si mesma, mas nunca é neutra. “Assume o rosto de quem a cria e utiliza”, escreve o Papa, defendendo que a inteligência artificial deve servir o bem comum e não os interesses económicos, militares ou políticos de uma minoria.

Leão XIV manifesta preocupação com a concentração das novas tecnologias nas mãos de poucos grupos e alerta para o risco de uma nova forma de colonialismo, baseada no controlo de dados, da informação e dos comportamentos humanos. Critica ainda os sistemas digitais desenhados para explorar fragilidades, manipular opiniões e capturar a atenção das pessoas.

A encíclica dedica especial atenção ao mundo do trabalho, defendendo que a inovação tecnológica não pode significar desemprego, precariedade ou desvalorização humana. O Papa pede que a economia volte a colocar a dignidade da pessoa no centro e sublinha que o desenvolvimento não deve ser medido apenas pelo crescimento económico, mas também pela redução das desigualdades e pela proteção do ambiente.

Outro dos temas fortes do texto é a guerra. Leão XIV considera urgente “desarmar a inteligência artificial”, afastando-a da lógica militar e do armamento autónomo. Afirma mesmo que nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável e pede que seja ultrapassada a teoria da “guerra justa”, dando prioridade ao diálogo, à diplomacia e à negociação.

Num tempo marcado pela polarização e pela desinformação, o Sumo Pontífice defende também uma “ecologia da comunicação”, baseada na verdade, na transparência e num jornalismo sério. Mostra preocupação com os jovens, alertando para o perigo de as máquinas substituírem o pensamento crítico e o desejo de questionar.

A encíclica termina com um apelo à construção de uma “civilização do amor”, capaz de resistir à cultura do poder e da indiferença. Para Leão XIV, o grande desafio da era digital será preservar aquilo que torna o ser humano verdadeiramente humano: a capacidade de relação, de fragilidade, de compaixão e de amor.

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