Na aldeia do Freixo, no concelho de Redondo, um simulacro do programa “Aldeia Segura – Pessoas Seguras” juntou, entre outros, moradores, bombeiros, GNR e proteção civil. Entre sirenes, evacuações e hesitações em abandonar a casa, o exercício mostrou como um incêndio rural pode mudar tudo em minutos, mesmo quando é apenas treino.

    Rosário Silva

O fogo aproxima-se da aldeia do Freixo. A sirene corta o silêncio da manhã e, de repente, a rotina quebra-se. Há quem saia de casa sem hesitar, há quem pare à porta, ainda com a chave na mão, como se o gesto de fechar a porta pudesse segurar o mundo do lado de fora. Mas não é fogo a sério. É treino. Um simulacro. E, ainda assim, ninguém parece completamente indiferente ao que está a acontecer.

No concelho de Redondo, a aldeia do Freixo foi palco de mais uma edição do programa “Aldeia Segura – Pessoas Seguras”, que procura preparar comunidades rurais para responder a incêndios florestais com rapidez, organização e, sobretudo, segurança. Entre os moradores envolvidos estão duas mulheres que dão rosto a esse momento de hesitação entre ficar e partir.

Olívia Pardal, de 74 anos, foi retirada de ambulância no cenário montado pelas autoridades, onde se incluem as assistentes sociais Marli Silva e Inês d’Orey para um primeiro acompanhamento. Ainda nervosa, Olivia conta que a sua primeira reação não foi de alívio, foi de resistência. “Não queria vir”, confessa. “Para não deixar a minha casa.” O apego ao espaço onde se vive uma vida inteira não desaparece com uma sirene. Nem mesmo quando se sabe que é um exercício. Apesar de hesitar, acaba por aceitar aquilo que, no terreno, todos repetem como regra simples e dura. “Primeiro a vida.”

Ao lado, a vizinha Isabel Rosalino vive o mesmo sobressalto. A sirene fez com que saísse rapidamente de casa, com o que conseguiu agarrar em segundos: cartão de cidadão, telemóvel e algum dinheiro. “Fiquei aflita”, admite. Mesmo sabendo que não havia fogo real, a sensação foi suficiente para deixar marca. “Se isto é uma simulação, o que será a aflição quando nos deparamos com situações destas?”, pergunta. E acrescenta, já com outra distância emocional: “Estes exercícios são muito importantes. Fazem-nos pensar.”

No terreno, nada disto acontece ao acaso. O simulacro envolve um sistema complexo que vai muito além da evacuação da população. Há coordenação entre bombeiros, GNR, Cruz Vermelha, proteção civil e serviços municipais, num cenário desenhado para testar tudo ao mesmo tempo: pessoas, meios e decisões.

O presidente da Câmara Municipal de Redondo, David Galego, explica que o objetivo é precisamente esse: transformar um risco abstrato numa resposta organizada. “Temos de perceber quais são os mecanismos que temos à nossa disposição”, refere, sublinhando que o trabalho não se limita ao combate ao fogo.

Há logística, alimentação, combustível, pontos de água, máquinas para abertura de aceiros e até a organização de abrigos para populações evacuadas. “Tudo isto está identificado.”

Mas há outro mapa que não aparece nos planos oficiais: o das pessoas. Saber quem vive isolado, quem tem mobilidade reduzida, quem pode precisar de ajuda imediata. E, sobretudo, conseguir chegar lá a tempo. “Se tivermos uma pessoa na horta e outra em casa, temos de saber que são duas pessoas e não uma”, sublinha o autarca.

No cenário do Freixo, esse detalhe foi posto à prova com um casal de idosos com mobilidade reduzida, obrigando a reforço de meios e coordenação no terreno. “É nesta especificidade de treino que nós também entramos”, resume David Galego.

O exercício serve também para outra coisa menos visível: manter viva a memória do risco. Na Serra d’Ossa, onde a última grande ocorrência remonta a 2006, o tempo tende a suavizar a urgência. E isso sente-se na forma como a população reage.

É essa ligação entre território e conhecimento que João Inverno representa. Natural do Freixo, conhece a aldeia como poucos. No simulacro, foi ele quem percorreu as ruas numa carrinha com megafone, alertando os moradores para a necessidade de evacuação. “Foi-me proposto passar por ali e avisar as pessoas que estava a decorrer um incêndio de grandes dimensões e havia necessidade de ir para os abrigos”, explica.

Não é apenas uma função técnica. É um papel de proximidade. “É sempre importante salvar vidas e ajudar as pessoas”, diz. E acrescenta que, nestes exercícios, também se aprende a ler melhor a comunidade: quem pode ajudar, quem está disponível, quem conhece o terreno. “Há pessoas que vivem em montes dispersos, e é necessário dar essa informação.”

Se João Inverno representa o conhecimento do território, os bombeiros representam a resposta imediata. O comandante dos Bombeiros Voluntários de Redondo, Sérgio Valente, explica que o simulacro permitiu testar tempos de reação e coordenação de meios. “Estamos a conseguir analisar e avaliar os tempos de resposta que temos numa situação real”, refere.

Mas a avaliação não é feita com ilusões. “Não são suficientes”, admite sobre os meios disponíveis, embora sublinhe que a corporação procura adaptar-se com o que tem. “Nunca estaremos bem preparados”, diz. “Mas estamos sempre a melhorar.”

Também a Proteção Civil sub-regional do Alentejo Central acompanhou o exercício. Fábio Pontes, 2º Comandante, elogia a organização, mas aponta um problema recorrente: a participação da população. “O que é pena é adesão das pessoas ao desenvolvimento do exercício.”

Na sua leitura, a ausência de grandes incêndios na região há quase duas décadas pode ter criado uma sensação de distância. “As pessoas acabam por esquecer ou nunca vivenciaram uma situação destas.”

A sirene volta a ecoar, mas agora já ninguém corre. É apenas parte do ensaio.

A GNR assegura o controlo do trânsito e o apoio à evacuação. O comandante do posto de Redondo, Sargento-Chefe Grilo, explica que o trabalho da força de segurança passa sobretudo pela articulação com os restantes agentes. “Auxiliamos na evacuação da população e na manutenção da ordem pública”, refere.

Mas o momento mais sensível continua a ser o mesmo: convencer as pessoas a sair. “Em situação real, as pessoas percebem o perigo de outra forma e colaboram mais.” Quando não colaboram, o cenário muda. Mas o objetivo mantém-se inalterado. “A vida está sempre em primeiro lugar.”

No fim, o Freixo volta a ser apenas aldeia. Mas fica a sensação estranha de que, durante algumas horas, tudo podia ter sido verdade. E é precisamente por isso que se ensaia: para que, quando o fogo for real, ninguém tenha de improvisar o medo.

pt_PTPortuguese

Partilhar

Caro leitor, partilhe esta notícia nas suas redes sociais.