Evento em Vila Viçosa, a 30 de maio, junta famílias, jovens, movimentos e comunidades num dia pensado para “romper fronteiras” e celebrar uma Igreja aberta, intergeracional e próxima
Rosário Silva
A Diocese de Évora quer transformar a tradicional peregrinação anual a Vila Viçosa num grande encontro de rostos, gerações e carismas. No próximo dia 30 de maio, a chamada Festa da Diocese pretende reunir famílias, jovens, movimentos, congregações e comunidades paroquiais num ambiente de oração, convívio e partilha, marcado também pelo encerramento da Visita Pastoral que o arcebispo de Évora realizou nas últimas semanas aos concelhos de Mourão, Portel e Viana do Alentejo.
Mais do que um simples programa religioso, a iniciativa quer afirmar-se como um espaço de comunhão num tempo que o padre Gustavo Cúneo, diretor do Departamento da Pastoral Familiar, descreve como marcado pelo isolamento, pela pressa e pela fragmentação. “Muitas vezes cada um entra no seu ritmo de trabalho e trabalha isolado. Aqui, a importância é conhecermo-nos todos e fazermos um trabalho eclesial em comum”, sublinha.
O sacerdote argentino, que há poucos meses assumiu funções na Pastoral Familiar da Diocese, fala da festa como um “primeiro grande encontro” onde todos possam sentir-se parte de uma mesma família, para lá dos laços de sangue. “A riqueza carismática de todos dá também um sentido de família e de pertença. Cada um com o seu carisma, com a sua forma de viver a fé, mas todos juntos”, afirma.
Uma festa para abrandar
O programa começa logo pela manhã com duas peregrinações a pé, a partir de Borba e Bencatel, rumo a Vila Viçosa. Pelo caminho, e ao longo de todo o dia, haverá momentos de oração, adoração ao Santíssimo, acolhimento, música, convívio e partilha. A receção aos participantes decorrerá na Igreja dos Agostinhos, animada pela Pastoral Juvenil, antes da chegada da imagem peregrina da Virgem Maria, que acompanhou a recente Visita Pastoral do arcebispo. Depois, os participantes seguirão em peregrinação até ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição.
No meio de uma sociedade acelerada, o padre Gustavo acredita que iniciativas como esta ajudam também a recentrar prioridades. “A festa vai ser um momento para parar, para partilhar com o Senhor, autor da vida, que toca e acompanha a vida no dia a dia”, refere.
Ao mesmo tempo, a dimensão festiva não é esquecida. Haverá almoço partilhado, espaços de convívio e até porco assado preparado pelos escuteiros. “Essas coisas fazem amena, também, a convivência”, diz, sorrindo.
Outro dos momentos centrais do encontro, será novamente a homenagem aos casais que celebram 25, 50 e 60 anos de matrimónio. Num contexto em que “muitas coisas são transitórias”, o diretor da Pastoral Familiar considera essencial dar visibilidade a histórias de fidelidade e perseverança. “O casamento, para a Igreja, é para toda a vida. Precisamos deste testemunho, destas pessoas que consagraram a sua vida por amor e que, apesar das dificuldades do dia a dia, se mantiveram unidas”, afirma.
A imagem pretendida é precisamente a de uma Igreja onde convivem diferentes gerações: avós, pais, filhos e netos.
Mostrar a Diocese “por dentro”
Uma das novidades da Festa da Diocese será a presença de dezenas de movimentos, congregações e serviços diocesanos em pequenos espaços de apresentação ao público. A ideia passa por permitir que qualquer participante possa conhecer melhor o trabalho desenvolvido nas várias áreas pastorais e, eventualmente, encontrar um lugar onde se integrar. “Vai haver carismas, congregações, movimentos, grupos… Cada um pode encontrar um lugar, porque a Igreja tem lugar para todos”, explica o sacerdote.
Até os mosteiros de clausura foram convidados a participar, através de leigos ligados às comunidades religiosas, divulgando os seus carismas e trabalhos manuais. O padre Gustavo admite que esta primeira edição ainda enfrenta dificuldades organizativas e limitações nos contactos existentes, mas garante que a adesão tem sido positiva. “Foi bem-recebida a proposta. É algo novo, ainda estamos a pôr em movimento, mas o início é importante”, reconhece.
Em entrevista ao ‘Ser Igreja’, o sacerdote regressa várias vezes à ideia de abertura e inclusão. A participação da comunidade timorense residente na Diocese é um dos exemplos que destaca com mais entusiasmo. “Eles trazem uma fé que receberam de missionários portugueses e hoje encontram aqui um lugar para viver essa fé”, refere.
Para o responsável da Pastoral Familiar, a noção de família não pode ser reduzida a um conceito fechado. “Às vezes o coração põe limites, faz barreiras e fronteiras. Esta festa quer romper essas fronteiras”, diz.
A certa altura da entrevista, surge inevitavelmente a expressão popularizada pelo Papa Francisco: “todos, todos, todos”. O padre Gustavo concorda sem hesitar: “Uma Igreja em saída, uma Igreja aberta, uma Igreja ao encontro daquele que vem.”
O convite final deixa um apelo especial aos jovens em tempo de procura e discernimento. “Aqueles que estão a fazer perguntas sobre o que Deus espera deles podem encontrar aqui propostas, movimentos, comunidades, formas de servir”, afirma. E insiste numa ideia que atravessa toda a preparação da festa: ninguém deve sentir-se excluído: “Na nossa Igreja ninguém pode dizer: eu não sou parte, porque não tenho lugar.”
Foto | Thay Jesus-unsplash
