Novo reitor da Universidade de Évora tomou posse esta segunda-feira, defendendo uma academia “mais humana”, menos burocrática e mais ligada ao Alentejo. Na despedida, Hermínia Vilar falou da “solidão do poder” e alertou para os riscos que atravessam o ensino superior e a democracia.
Rosário Silva
A cerimónia de tomada de posse do novo reitor da Universidade de Évora ficou marcada por duas ideias que, embora vindas de vozes diferentes, acabaram por se encontrar: a necessidade de escutar e a responsabilidade de servir.
Numa Sala dos Atos cheia, o novo reitor, António Candeias, iniciou o mandato com um discurso longo, denso e fortemente político no sentido universitário do termo, menos centrado em números e mais numa visão de comunidade, território e missão pública. Logo no início deixou uma frase que acabou por definir o tom da intervenção: “Somos nós que servimos a instituição, não é a instituição que está ao nosso serviço”.
Falou devagar, por vezes quase em tom de aula magna, insistindo na ideia de que a Universidade “não pode ser espectadora” num tempo marcado pela inteligência artificial, pelas desigualdades, pelas crises ambientais e pela instabilidade democrática. E deixou claro que vê a academia eborense como parte ativa das respostas para o Alentejo.
“O Alentejo não é uma periferia. É um território de futuro”, afirmou, defendendo uma universidade mais próxima da região, dos municípios, das empresas, das escolas, das unidades de saúde e das comunidades locais.
A partir de Évora enviou um recado ao Ministro da Educação, Fernando Alexandre, que não esteve na cerimónia, sobre o que designou de “subfinanciamento crónico do ensino superior em Portugal”, considerando que a situação “condiciona o presente e o futuro” destas instituições.
“As universidades têm sido chamadas a responder a exigências crescentes. Mais qualificação, mais ciência, mais educação, mais internacionalização, mais inclusão, mais apoio social e mais modernização digital, mas os meios disponíveis nem sempre acompanham de forma estável e suficiente”, lamentou.
Ao longo da intervenção repetiu várias vezes palavras como “ética”, “confiança”, “serviço” e “responsabilidade”. E procurou afastar uma visão burocrática da instituição, prometendo simplificar processos internos e devolver tempo ao essencial: ensinar, investigar, criar e inovar.
Mas houve também espaço para um discurso mais humano. Dirigindo-se aos estudantes, reconheceu as dificuldades materiais e emocionais de quem hoje frequenta o ensino superior e afirmou que a resposta da Universidade “não pode ser apenas administrativa”. “Tem de ser humana”, disse.
Numa das passagens, defendeu uma universidade pública “autónoma, responsável e de matriz não fundacional”, insistindo que o conhecimento deve continuar “livre, crítico e ao serviço da sociedade”.
A dimensão cultural da Universidade também surgiu com destaque, sobretudo num momento em que Évora se prepara para ser Capital Europeia da Cultura. Citando o realizador grego Theo Angelopoulos – “A cultura é a única forma de recuperar a dignidade perdida” – o novo reitor defendeu uma academia mais presente na vida cultural da cidade.
Antes dele, a reitora cessante, Hermínia Vilar, fizera um balanço dos últimos quatro anos, mas reservou a parte final da intervenção para reflexões mais pessoais e políticas.
Falou da exigência de liderar, da pressão da decisão e daquilo a que chamou “a solidão do poder”. Disse que nem sempre conseguiu responder a todos nem decidir como alguns esperavam, mas sublinhou que sempre tentou manter “a porta aberta” e uma gestão “com rosto humano”.
Hermínia Vilar afirmou deixar uma universidade “mais forte, mais reconhecida e mais articulada com redes internacionais”, embora reconhecendo que ficaram “projetos a meio” e que o tempo das instituições “tem uma cadência mais longa”.
Num discurso algo crítico, alertou também para as tensões internas que atravessam as universidades e para a necessidade de preservar a imparcialidade e a democracia académica. Defendeu a futura alteração do modelo de eleição do reitor, considerando que permitirá reduzir manipulações e devolver maior peso à vontade da academia.
Na reta final, o tom tornou-se mais sombrio. Citando pensadores contemporâneos, falou de um tempo marcado pelo medo, pela insegurança e pela erosão da verdade, contrapondo-lhe “uma esperança prática”, ligada à ação concreta.
“Os valores da paz, da democracia, da inclusão e da mobilidade social precisam de defesa”, afirmou, lembrando que o ensino superior continua a ser, para muitos jovens, a possibilidade de “cumprir sonhos e ter um lugar na sociedade do futuro”.
Curiosamente, os dois discursos acabaram unidos por um mesmo autor. Se o novo reitor terminou evocando Ricardo Reis – “Para ser grande, sê inteiro” – Hermínia Vilar despediu-se com versos de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.
Entre aplausos, abraços demorados, muitos sorrisos e fotografias, ficou a sensação de passagem de testemunho num tempo particularmente exigente para as universidades. E também a ideia, repetida pelos dois responsáveis, de que a Universidade de Évora terá de continuar a pensar-se não apenas como instituição de ensino, mas como espaço de serviço público, pensamento crítico e compromisso com o território.
