Celebrações dos 50 anos da canonização de Santa Beatriz da Silva reuniram religiosas de vários países e culminaram com a entrada de Matilde Carvalho na vida religiosa contemplativa
Rosário Silva
O Mosteiro da Imaculada Conceição, em Campo Maior, viveu esta semana um dos momentos mais marcantes do Ano Jubilar dedicado a Santa Beatriz da Silva, com a tomada de hábito de Matilde Cansado Carvalho, jovem de 28 anos, natural de Lisboa, que iniciou oficialmente o noviciado na Ordem da Imaculada Conceição.
A cerimónia, realizada no dia 9 de maio, decorreu numa igreja cheia de familiares, amigos, religiosas, sacerdotes e fiéis que quiseram acompanhar a nova etapa de vida da jovem, que passa agora a chamar-se Soror Matilde Maria do Coração Sacerdotal de Jesus. A celebração foi presidida pelo D. Francisco Senra Coelho e contou também com a presença do presidente da Câmara de Campo Maior, Luís Rosinha.
O momento da tomada de hábito aconteceu no final de vários dias de celebrações ligadas ao jubileu dos 50 anos da canonização de Santa Beatriz da Silva, nascida precisamente em Campo Maior no século XV e fundadora da Ordem da Imaculada Conceição. Entre 5 e 7 de maio, o mosteiro recebeu monjas concecionistas vindas de Portugal, Espanha e de diferentes países da América Latina, num encontro internacional marcado pela oração, convívio e aprofundamento espiritual em torno do carisma concecionista.
Na homilia da celebração da tomada de hábito, o arcebispo de Évora falou da dimensão missionária e universal da entrega religiosa. Referindo-se ao gesto simbólico do corte do cabelo da nova noviça em quatro partes, explicou que esse ato representava “os quatro pontos cardeais da humanidade” e uma entrega “pelo mundo todo e por todos, sem exceção”.
D. Francisco Senra Coelho destacou a exigência da vida contemplativa e a radicalidade da consagração. “A entrega não se salva pelos 99%, mas pela totalidade”, afirmou, descrevendo a vida religiosa como um caminho de esvaziamento de si próprio para dar lugar a Deus. Ao longo da homilia, falou ainda da oração contemplativa como um serviço silencioso à humanidade e da missão espiritual das monjas como uma forma de sustentar o mundo através da oração.
“O Senhor faz o resto e o resto é quase tudo”, afirmou o prelado, insistindo que a vida religiosa exige “vigor”, “audácia” e capacidade de perseverar mesmo nas dificuldades. Numa das passagens mais expressivas da homilia, comparou a entrega das contemplativas a um “martírio da vida contemplativa”, feito de doação diária, silêncio e fidelidade.
A nova irmã falou no final da cerimónia, visivelmente emocionada, improvisando algumas palavras de agradecimento dirigidas à comunidade, aos sacerdotes que a acompanharam, aos amigos e à família. Disse sentir-se profundamente grata pelo caminho percorrido e pelas pessoas que a ajudaram a amadurecer a sua vocação.
“Estou muito agradecida ao Senhor, ao meu Jesus”, afirmou, acrescentando que sente a Igreja como uma verdadeira família que a viu crescer e que a ajudou a tornar-se a pessoa que é hoje.
Soror Matilde recordou também os sacerdotes e seminaristas que fizeram parte do seu percurso espiritual e disse querer oferecer a sua vida “pelos sacerdotes” e pela evangelização. Natural de Lisboa, cresceu ligada a movimentos católicos e atividades juvenis da Igreja, entre eles as Equipas de Jovens de Nossa Senhora e vários campos de férias cristãos, ambientes onde começou a sentir o apelo à vida consagrada.
Num dos momentos mais aplaudidos da cerimónia, fez questão de desfazer a ideia de que a vida contemplativa representa uma fuga ao mundo.
“Estou aqui porque amo muito o mundo, estou aqui porque amo muito as pessoas”, afirmou. “Amo muito a minha família, amo muito os meus amigos e desejo muito oferecer-me pelo mundo para que todos possam experimentar este amor e esta comunhão com Deus.”
As celebrações jubilares desta semana incluíram também uma passagem por Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, onde decorreu uma eucaristia presidida igualmente pelo arcebispo de Évora. O encontro reuniu religiosas de vários países ligadas ao carisma concecionista, reforçando a dimensão internacional da obra iniciada por Santa Beatriz da Silva e a ligação da ordem à devoção mariana da Imaculada Conceição.
Ao longo destes dias, as religiosas percorreram simbolicamente os “caminhos de Beatriz”, evocando a vida e o legado espiritual da fundadora da ordem, cuja figura continua profundamente ligada a Campo Maior e à espiritualidade concecionista espalhada por vários continentes.
As celebrações ficaram ainda marcadas por um gesto simbólico de amizade e ligação entre comunidades católicas. A embaixadora da República Dominicana em Portugal, Patricia Villegas de Jorge, ofereceu ao Mosteiro da Imaculada Conceição uma imagem de Nossa Senhora de Altagracia, padroeira espiritual e protetora do povo dominicano.
A oferenda aconteceu no dia da tomada de hábito e foi recebida pela comunidade como sinal de comunhão e proximidade num ano particularmente significativo para as monjas concecionistas de Campo Maior.
