Espaço de simulação quer aproximar os estudantes da realidade das farmácias comunitárias e mostrar que a profissão vai muito além da entrega de medicamentos
Rosário Silva
À primeira vista, parece uma farmácia verdadeira. Há um balcão de atendimento, um computador, caixas de medicamentos alinhadas nas prateleiras, e até um ambiente pensado ao detalhe para recriar o quotidiano de uma farmácia comunitária. Mas quem entrar na nova sala inaugurada na Universidade de Évora não vai aviar receitas nem comprar medicamentos. O objetivo é outro: preparar futuros farmacêuticos para a vida real.
O novo Laboratório de Simulação de Farmácia Comunitária começou a funcionar no Colégio do Espírito Santo, resultado de uma parceria entre a universidade, a Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano e a Associação Nacional das Farmácias (ANF). O espaço foi criado para permitir aos alunos treinar situações concretas da profissão, desde a dispensa de medicamentos ao aconselhamento farmacêutico, passando pela comunicação com os utentes e pela prestação de serviços de saúde.
Mais do que uma simples sala de aula, o laboratório pretende reproduzir aquilo que os estudantes vão encontrar quando entrarem no mercado de trabalho.
“É uma sala de aula, mas com o ambiente real de uma farmácia”, resume o vice-reitor da universidade, João Nabais. Para o responsável, o contacto humano é uma das dimensões mais importantes da profissão e algo que não se aprende apenas nos livros.
“Todos nós já fomos a uma farmácia e sabemos que o contacto com a pessoa que nos atende é fundamental, dos dois lados. Esta relação humana é aquilo que também se vai ensinar aqui”, sublinha.
O objetivo passa precisamente por colocar os estudantes perante cenários semelhantes aos que irão enfrentar no futuro: utentes com dúvidas, pedidos de aconselhamento, situações clínicas específicas ou necessidade de explicar corretamente a toma de medicamentos. Tudo num ambiente controlado, onde o erro também faz parte da aprendizagem.
Apesar do realismo do espaço, João Nabais faz questão de esclarecer que não existe qualquer risco associado aos medicamentos presentes no laboratório. “Tudo o que necessita de receita médica são caixas vazias. Isto é uma farmácia de simulação”, explica. O espaço está equipado para fins pedagógicos e não funciona como estabelecimento aberto ao público.
Segundo o vice-reitor, a criação do laboratório exigiu vários meses de trabalho e articulação entre diferentes entidades. A universidade teve de encontrar e adaptar um espaço adequado, enquanto a componente mais técnica da simulação foi apoiada pela Associação Nacional das Farmácias e por parceiros do setor farmacêutico.
“Os cursos de Ciências Farmacêuticas têm de ter uma farmácia de simulação. Era algo que fazia falta e trabalhámos para conseguir criar estas condições”, afirma.
Durante a inauguração, João Nabais aproveitou ainda para destacar o crescimento da área da saúde na universidade, embora tenha afastado uma ligação direta entre este projeto e a futura criação do curso de Medicina em Évora. Ainda assim, admite que o novo Hospital Central do Alentejo poderá abrir caminho a essa possibilidade nos próximos anos.
“Queremos ter o curso de Medicina em Évora, faz sentido, mas este espaço não tem esse propósito. O objetivo aqui é formar licenciados em Ciências Farmacêuticas”, esclareceu.

Do lado da Associação Nacional das Farmácias, o projeto surge integrado numa estratégia nacional de atração e retenção de talento para as farmácias comunitárias. O contacto com as universidades tem sido uma das apostas da associação, numa altura em que as farmácias assumem cada vez mais funções no sistema de saúde.
“Hoje em dia as farmácias fazem muito mais do que dispensar medicamentos”, lembra Miguel Samora. O responsável enumera serviços que passaram a fazer parte da rotina das farmácias comunitárias, como vacinação, testagem, administração de injetáveis, medição de parâmetros de saúde e programas de acompanhamento terapêutico.
“Há um acompanhamento muito próximo das pessoas. Muitas vezes, a farmácia é o primeiro local onde alguém procura ajuda ou esclarecimento”, refere.
Para Miguel Samora, vogal da direção da ANF, a existência de espaços de simulação é essencial porque permite aos estudantes aplicarem os conhecimentos científicos em situações próximas da realidade, antes do contacto direto com os utentes.
“O estudante pode ser confrontado com uma pessoa que apresenta sintomas específicos, que tem outros problemas de saúde ou dúvidas sobre a medicação. Tem de saber ouvir, interpretar e aconselhar”, explica.
Além da utilização pelos alunos, o laboratório poderá também servir para ações de formação dirigidas a profissionais das farmácias comunitárias, reforçando a ligação entre a academia e o setor farmacêutico.
A nova “farmácia” da Universidade de Évora junta-se assim a outras estruturas semelhantes existentes no país e pretende reforçar uma componente prática cada vez mais valorizada na formação em saúde.
E mesmo sem clientes reais, receitas aviadas ou medicamentos entregues ao balcão, o espaço agora inaugurado já começou a cumprir aquilo para que foi criado: aproximar os futuros farmacêuticos do mundo que os espera lá fora.
Fotos | Universidade de Évora
