Rosário Silva

De Alcácer do Sal a Estremoz, uma aula aberta da CCDR Alentejo revelou o que acontece no terreno após as tempestades, mostrando como atuam os técnicos da Unidade de Cultura, dos primeiros alertas às intervenções de emergência na área do Património Cultural. Está lançado o debate sobre como proteger o património no futuro.

O telefone tocou fora de horas e, no dia seguinte, as equipas estavam no terreno. Foi assim que começou a resposta ao chamado “comboio de tempestades” que atingiu o Alentejo, deixando marcas no património e obrigando a intervenções de emergência que, em muitos casos, ainda estão em curso.

Numa aula aberta promovida pela Comissão de Coordenação da Região do Alentejo (CCDRA), os técnicos da Unidade de Cultura (UC) partilharam uma realidade feita de urgência, mas também de aprendizagem. Entre chamadas inesperadas, deslocações rápidas e decisões no terreno, foi sendo desenhada uma resposta a fenómenos extremos que vieram expor fragilidades antigas e, em simultâneo, outras novas.

“Tudo começa quando o telefone toca”, descreveu o arquiteto Artur Alves, Chefe de Divisão da UC da CCDRA, sublinhando que o património “não tem horário”. A qualquer momento, uma derrocada, uma infiltração ou um deslizamento pode exigir ação imediata. E, nesses momentos, a prioridade é clara: proteger pessoas e bens, avaliar riscos e agir rapidamente.

Entre os vários casos analisados, foi Alcácer do Sal que assumiu maior destaque. O concelho foi o único do Alentejo incluído no estado de calamidade decretado pelo Governo na sequência da tempestade “Kristin”, o que exigiu uma resposta particularmente célere. No terreno, engenheiros, arquitetos ou arqueólogos, encontraram um cenário complexo. A fortaleza medieval de Alcácer do Sal não apresentava danos diretos, mas a sua envolvente levantava preocupações. “Detetámos deslizamentos do coberto vegetal numa encosta bastante íngreme”, explicaram os técnicos, referindo-se à zona sul. Mais sensível ainda era a área dos contrafortes, estruturas de reforço da muralha, onde também se verificaram sinais de instabilidade. “Pode estar em causa o próprio imóvel classificado”.

Perante este cenário, foram tomadas medidas imediatas: interdição de acessos, sinalização de zonas de risco e monitorização contínua. Seguir-se-ão estudos geotécnicos e soluções de estabilização, num processo que poderá ser longo e exigente. Mas Alcácer do Sal foi também um caso paradigmático pela necessidade de antecipação. A inclusão no estado de calamidade abriu a possibilidade de acesso a financiamento, mas exigiu rapidez na produção de informação técnica. “Não ficámos à espera que o telefone tocasse. Fizemos nós as vistorias para garantir que o concelho pudesse aceder aos fundos”, sublinhou Artur Alves.

Outros exemplos apresentados nesta aula aberta, a que assistiram dezenas de alunos da Universidade de Évora, ajudam também a perceber a dimensão do problema.

Em Estremoz, por exemplo, derrocadas sucessivas na muralha revelaram fragilidades antigas, incluindo intervenções anteriores que poderão não ter sido eficazes. Já em Veiros, o colapso parcial de um troço de muralha expôs riscos estruturais elevados, com necessidade de medidas urgentes de contenção e estabilização.

Em todos os casos, repete-se um padrão: infiltrações, degradação de materiais, falta de manutenção e, sobretudo, a pressão crescente de fenómenos climáticos extremos.

É neste ponto que o património religioso ganha particular relevância. Igrejas, conventos e outros edifícios ligados à vida das comunidades foram também afetados, num território onde estes espaços continuam a ser mais do que monumentos, pois são lugares vivos de fé, encontro e identidade.

Prevenir para não ter de remediar

A resposta, reconhecem os técnicos, não pode ser apenas reativa. “Temos de prevenir para quando o telefone voltar a tocar”, defendeu Artur Alves, apontando a necessidade de uma mudança de paradigma.

Essa mudança passa, desde logo, por reforçar a monitorização do património em toda a região, envolvendo um conjunto alargado de parceiros: municípios, universidades, ordens profissionais, mas também dioceses, misericórdias e comunidades locais. A ideia é criar uma rede capaz de acompanhar, de forma contínua, o estado dos edifícios. “Desde a pessoa que cuida da igreja até aos técnicos especializados, todos podem contribuir”, exemplificou o arquiteto, sugerindo soluções simples, como o envio periódico de fotografias para registar fissuras ou sinais de degradação.

Entre as propostas está também a criação de guias práticos de atuação em caso de emergência, ou seja, documentos simples, acessíveis, que permitam uma primeira resposta antes da chegada das equipas técnicas. Numa perspetiva mais ambiciosa, foi ainda lançada a ideia de unidades móveis equipadas com meios de diagnóstico rápido, como drones e sistemas de comunicação direta, capazes de recolher e transmitir informação em tempo real. “O problema muitas vezes não é só intervir, é conseguir que a informação chegue rapidamente a quem decide”, reconheceu o responsável.

Num território com um património vasto e recursos limitados, a definição de prioridades será inevitável. Nem tudo poderá ser intervencionado ao mesmo tempo. Mas, perante a crescente frequência de fenómenos extremos, uma certeza emerge desta reflexão: a salvaguarda do património exige hoje mais do que conservação: exige antecipação, coordenação e uma resposta coletiva. Porque, como ficou claro nesta aula aberta, da próxima vez que o telefone tocar, o tempo para agir poderá ser ainda mais curto.

Danos “de valor incalculável” no património

Uma realidade que dá que pensar. Para o vice-presidente da CCDR Alentejo para a Cultura, Henrique Sim-Sim, o chamado “comboio de tempestades” obrigou, efetivamente, a uma intervenção imediata.

“Foi uma resposta muito competente, muito ágil, muito imediata a um conjunto de fenómenos extremos que degradaram o nosso património”, afirmou, em entrevista ao jornal “a defesa”, destacando o trabalho desenvolvido pela Unidade de Cultura no terreno.

Mais do que uma resposta pontual, o responsável considera que este episódio deve ser encarado como um sinal de alerta. “Estes fenómenos vão repetir-se com maior frequência e é importante que os nossos serviços estejam cada vez mais bem preparados”, advertiu, defendendo a necessidade de formação e de maior capacidade de intervenção. O levantamento de danos foi realizado logo após as intempéries, mas continua em atualização. “Este é um trabalho em curso que não terminou”, explicou, alertando para o aparecimento de novas anomalias nos edifícios, das alterações nos solos e das infiltrações.

Sem avançar um valor global dos prejuízos, Henrique Sim-Sim admite que estão em causa “montantes elevados”, mas sublinha que a dimensão vai além do financeiro. “Estamos a falar de muito, mas também de um valor incalculável” disse, referindo-se ao património classificado, cujo valor é “simbólico e patrimonial”.

Entre os imóveis mais afetados estão fortificações, mas também património religioso, como igrejas e conventos, além de estruturas ligadas à arqueologia. “Tudo o que tem a ver com coberturas e infiltrações vai dar sinais nos próximos tempos”, alertou.

Perante a dimensão dos danos, o trabalho em rede surge como essencial. A CCDR tem articulado a sua intervenção com municípios, ordens profissionais, universidades e também entidades ligadas à Igreja. “Temos estado em diálogo com todos, juntando esforços e recursos que são escassos”, referiu.

Ainda assim, o responsável reconhece os limites: “Nunca vai haver dinheiro para tudo”. Num território com vasto património, será necessário estabelecer prioridades e intervir primeiro nas situações mais urgentes.

Num contexto de alterações climáticas, a salvaguarda do património no Alentejo entra, assim, numa nova fase, mais exigente, mais incerta e onde a capacidade de resposta poderá fazer a diferença entre preservar ou perder uma herança construída ao longo de séculos.

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