O XVII Congresso da Sociedade Ibérica para a Conservação e Estudos dos Mamíferos (SECEM) decorreu na Universidade de Évora entre 5 e 8 de dezembro. Foi organizado pela Universidade, pelo Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED) e pela SECEM. O Congresso encerrou os seus trabalhos com uma forte mensagem sobre a necessidade de cooperação transfronteiriça para a conservação da biodiversidade. O evento reuniu 419 participantes (297 espanhóis, 112 portugueses e 10 de outras nacionalidades), consolidando-se como o maior fórum científico da Península Ibérica dedicado ao estudo dos mamíferos.

Durante o congresso, foram apresentadas 277 comunicações (139 orais e 138 pósteres), além de duas sessões plenárias e três workshops técnicos. O programa refletiu o esforço conjunto de investigadores de ambos os lados da fronteira, abordando desde grandes carnívoros a micromamíferos, com um foco crescente em novas tecnologias de estudo e de monitorização.

O congresso ficou marcado pela dualidade entre os sucessos de conservação e as emergências ecológicas atuais:

· O Regresso do Lince-ibérico. Várias sessões destacaram a recuperação desta espécie emblemática, focando-se na gestão genética das populações reintroduzidas e na conectividade entre núcleos populacionais. Os especialistas debateram a sobrevivência pós-libertação e a expansão da espécie em Portugal e Espanha.

· Alerta Crítico para a Toupeira-de-água. Em contraponto, foi lançado um alerta severo sobre Galemys pyrenaicus. Uma sessão inteira foi dedicada ao “cenário crítico” de conservação desta espécie semiaquática, com apresentações que apontam para um declínio acentuado e a necessidade urgente de estratégias de conservação transfronteiriças e estimativas populacionais globais rigorosas.

A natureza não reconhece fronteiras administrativas, e o programa científico espelhou essa realidade. Temas transversais dominaram os debates:

1. O Lobo-ibérico: Foram apresentados dados sobre o censo nacional em Portugal, ataques a gado e estratégias de coexistência, incluindo a análise de compensações económicas na Europa e a monitorização de lobos mortos através da cooperação entre entidades.

2. Ecologia de Estradas: Investigadores alertaram para o impacto das infraestruturas lineares, discutindo a mortalidade por atropelamento de carnívoros ameaçados, como o gato-bravo e o lince, e apresentando dados do projeto SAFE sobre atropelamentos de fauna em Espanha.

3. Gato-bravo e Hibridação: A conservação do gato-bravo (Felis silvestris) mereceu destaque, com foco nos riscos de hibridação com gatos domésticos e na

necessidade de desenhar ações de conservação baseadas em amostragens robustas.

O congresso demonstrou ainda o avanço tecnológico na monitorização de fauna. Foram apresentados estudos inovadores utilizando ADN ambiental (eDNA) para detetar espécies esquivas como roedores e musaranhos, bem como o uso de foto-armadilhagem e inteligência artificial para estimativas de densidade populacional e deteção de doenças como a sarna.

Este congresso reafirmou que a conservação dos mamíferos na Península Ibérica depende de uma estratégia unificada. O intercâmbio de dados entre Portugal e Espanha é hoje mais vital do que nunca para garantir que casos de sucesso, como o do lince, se repitam, e que o desaparecimento silencioso de espécies como o da Toupeira-de-água seja travado a tempo.

WEBSITE DO CONGRESSO: https://www.congresosecem.es/?lang=pt

pt_PTPortuguese

Partilhar

Caro leitor, partilhe esta notícia nas suas redes sociais.