Nesta Sexta-feira Santa, dia 2 de abril, às 15h00, o Arcebispo, D. Francisco José Senra Coelho, preside à celebração da Paixão do Senhor, na Catedral de Évora.


HOMILIA SEXTA-FEIRA SANTA

02-IV-2021

A Sexta-feira Santa é o dia da paixão, morte e sepultura de Jesus. Não deve ser vivida num clima de luto, mas de profundo espanto por Aquele que deu a Sua vida por nós.

Neste dia, o jejum e a abstinência são parte importante. Contudo, o verdadeiro significado do jejum e da abstinência recai na importância de discernir sobre o essencial, e aprender a abandonar o que não tem valor nem é duradouro.

Ainda assim, o estar em comunhão com os outros é igualmente importante para celebrar este dia, que é também o dia em que se inicia o grande silêncio; o dia em que, perante o aparente triunfo do mal, apetece “morder os lábios”.

De facto, neste dia juntam-se todas as perguntas que colocamos e às quais não temos resposta, para, assim, dizer ao Pai como Jesus: Nas tuas mãos me abandono, nas tuas mãos me entrego.

Os cristãos sempre tiveram consciência de que Jesus morreu (cf. 1Cor 15, 3) e, desde cedo, mostraram uma percepção muito nítida acerca do sentido da Sua morte. É verdade que, como seria de prever, a consternação foi geral entre os discípulos. Houve mesmo quem desse a entender que se tratou de um fracasso (cf. Lc 24, 21-24). Comentava-se a morte e procurava-se venerar o corpo do morto (cf. Mc 16, 1-3).

A reflexão, porém, depressa evoluiu inscrevendo a morte de Cristo na categoria de morte expiatória. Ao morrer pelos «nossos pecados» (cf. 1Cor 15, 3), Ele obteve para nós a justiça de Deus (Cf. 2Cor 5, 21). Assim sendo, mais do que morrer como nós, Cristo deu a vida por nós. Aprofundando a leitura teológica da morte biológica, os cristãos passaram a centrar-se não no facto da morte, mas sobretudo no seu significado. Para eles, Jesus, mais do que aquele que morreu, é aquele que deu a vida (cf. Jo 15, 13).

Foi assim que a Igreja se acostumou a não falar dessa morte como morte. E, em vez de a lamentar, habituou-se até a celebrá-la em ambiente festivo. Como é sabido, a Liturgia Pascal garante que Cristo «destruiu a morte». E Santo Agostinho é um dos que não hesita em proclamar que Cristo «matou a morte com a Sua morte»: ao morrer «matou em Si a morte», pelo que «nós somos livres da morte pela Sua morte». Já São Gregório de Nissa verbalizava que: «foi dissolvido o império da morte» e «começou o reino da vida».

É certo que O dão como morto (cf. Jo 19, 33) e sepultado (cf. Mc 15, 46). Mas o que avulta é que, ao relatarem o que aconteceu na Cruz, os evangelistas não dizem abertamente que Jesus morreu. Marcos (15, 37) e Lucas (23, 46) referem que Jesus «expirou». Embora seja considerado sinónimo de falecer, o sentido imediato de expirar é expelir ar.

Como sabemos, uma das palavras que os gregos usavam para descrever o ar era pneuma. Esta traduz-se habitualmente por espírito. Olhando para a fórmula verbal depreendemos que Jesus deixou sair o pneuma, ou seja, o espírito. Esta percepção sai mais reforçada em Lucas. Com efeito, antes de expirar – isto é, antes de deixar sair o espírito – Jesus anuncia ser isso mesmo o que vai fazer: «Pai, nas Tuas mãos, entrego o Meu Espírito».

Tudo, no entretanto, se explica em Mateus (27, 50) e João (19, 30). Para Mateus, «deixou ir o espírito» e, segundo João: «entregou o espírito». A entrega do Espírito não tem de ser o indicador da morte. Entregar o Espírito – a Deus e aos homens – até será uma poderosa demonstração de vitalidade. Haja em vista que, na Bíblia, o Espírito é sinónimo de vida, pelo que entregar o Espírito também pode equivaler a entregar a vida (cf. JO 6, 63).

Acresce que o próprio Jesus tinha ressalvado que ninguém lhe tirava a vida; era Ele que a dava (cf. Jo 10, 18). Por conseguinte, o que imediatamente decorre de dar o Espírito é dar a vida (cf Jo, 6, 63), não é necessariamente morrer.

Reparemos no modo como Jesus entrega o Espírito na Cruz: «Inclinando a cabeça» (Jo 19, 30). Ora, inclinar a cabeça é próprio não só de quem morre, mas também de quem adormece. É sintomático notar que a Igreja sempre acreditou ter nascido não «do lado morto», mas como recorda o Concílio Vaticano II, do «lado adormecido» de Cristo, homem adormecido (cf. Gn 2, 21-22).

Antes de entregar o Espírito, Jesus declara que «tudo está consumado» (cf. Jo 19, 30). Podemos, de facto, dizer que tudo isto está consumado e que todo Ele está consumido, Jesus consuma a sua missão e consome a Sua vida: consome a sua vida ao consumar a Sua missão. Mas será que está tudo terminado? Sucede que Jesus – mesmo depois de tudo ter consumado e de todo Ele Se ter consumido – não parou de se entregar. João é o único Evangelista que nos dá conta do soldado que «picou o lado» de Jesus com uma «lança». (cf. Jo 19, 34). Foi, efectivamente, o que aconteceu. «Picou» é a tradução mais fiel do que se encontra no texto. Estamos habituados a que muitas traduções indiquem que o soldado trespassou o lado de Jesus. E, no fundo, este acto de picar foi um autêntico trespasse: de um lado para o outro: do lado de dentro para o lado de fora, do lado de Deus para o lado do homem. É do lado de dentro – isto é, do lado de Deus – que brotam as fontes da salvação: o «sangue e a água» (cf. Jo 19, 34). Mas como era possível dar mais quem já tinha dado tudo? Só Jesus é dádiva sem fim, é dádiva até para lá do fim. O «sangue e a água» que correm do Seu lado aberto continuam a escorrer pelo mundo inteiro. A água sempre foi vista como alusão ao sacramento do Batismo e o sangue sempre foi acolhido como símbolo do sacramento da Eucaristia. É assim que a Igreja gera e alimenta filhos para Deus, a partir da entrega do Filho de Deus (cf. Gal 4, 5). A sua função consiste em gestar Cristo no homem e em maternar cada homem no seu itinerário, por Cristo, até Deus.

Estamos uma vez mais perante uma luminosa afirmação de vida. A intenção de espetar a lança – e picar o corpo – era testar a morte. Sucede que aquele coração estava repleto de vida: da vida que, pelo Seu Filho, Deus ofereceu à humanidade. Como recordou o Papa Pio XII foi «do coração ferido do Redentor que nasceu a Igreja». O coração sinaliza o imenso amor «que moveu o nosso Salvador a celebrar o Seu místico matrimónio com a Igreja».

Militão de Sardes, no século II, coloca-nos na pista certa. Jesus «com o Seu Espírito, que não podia morrer, matou a morte homicida». É, por isso, que a Sua morte é uma morte morticida, uma morte que mata a morte. Não elimina a vida; ilumina a vida. Está concluída (cf. Jo 19, 30) a redenção, mas não a vida do Redentor. Até da morada dos mortos Ele ressurge vivo. Na sepultura não encontra um lugar de aniquilamento, mas de repouso. Tal como Deus repousara após a hora da criação (cf. Gn 2, 2), também o Filho de Deus repousa após a obra da redenção. Este repouso não é passivo. No seu repouso, Jesus está em plena actividade. Ele «faz questão de visitar os mortos que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte». Jesus é a «vida dos mortos».  Até para os mortos – sobretudo para os mortos – Ele é a vida. Dá a impressão de que Jesus não morreu, viveu a morte. É, por isso, que para Santo Agostinho, como para tantos outros, Jesus nasce para morrer, isto é, para viver a nossa morte. Ou seja, não tinha possibilidade de «dar a vida aos mortais». Tudo somado, mais do que morrer, Jesus participa na nossa morte. Porque «participando da nossa morte, torna-nos participantes da Sua vida». Enfim, Jesus muda tudo, indo ao ponto de nos vitalizar na própria morte. A vida de Jesus não é interrompida; é transfigurada pelo Espírito que nos entrega «da parte do Pai» (cf. Jo 15, 26). É no Espírito que Jesus vive eternamente e é no Espírito que também nós viveremos para sempre.

Nesta celebração seremos convidados a adorar o mistério da Cruz. A Cruz pode simbolizar muitas coisas, desde as nossas maiores alegrias até às nossas maiores tristezas. Procurar a presença de Deus em cada uma delas pode ser um desafio para a Fé e, na verdade, não há nenhuma resposta imediata, somente a Fé firme e aberta à Esperança, de que Ele actuará. Desta forma, talvez seja o momento de perceber quais as cruzes das nossas vidas e de que forma posso viver com elas.

Como Maria, de pé junto à Cruz de Seu Filho, assumamos com fortaleza, Dom do Espírito Santo, a nossa cruz, as nossas cruzes.

+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora

 
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