Pelo menos 2.300 migrantes morreram ou desapareceram no mar em 2020 ao tentar alcançar a Europa, um aumento face a 2019 mesmo com todas as restrições da pandemia de covid-19, divulgou hoje a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Segundo a agência que integra o sistema das Nações Unidas, o número de migrantes e de requerentes de asilo que chegaram à Europa em 2020 é o mais baixo da última década, mas a morte e o desaparecimento de pessoas nas várias rotas marítimas migratórias continuam a ocorrer em níveis “assustadoramente altos”.

Num relatório hoje publicado, a OIM, que reúne estes dados através do projeto “Missing Migrants”, especifica que o número de mortes e de desaparecimentos verificado no ano passado é maior em relação a 2019, ano em que foram registadas 2.095 vítimas, e um pouco menor em comparação a 2018, que observou 2.344 vítimas.

Já em relação ao ano corrente, o projeto “Missing Migrants” já documentou, até à data, 300 migrantes mortos ou dados como desaparecidos em alto mar.

A organização lembra ainda que muitos corpos de vítimas não são recuperados e identificados, indicando, por exemplo, que os restos mortais de pelo menos 14 mil pessoas continuam desaparecidos no mar Mediterrâneo.

No relatório, a OIM aponta que entre as 93.000 pessoas que entraram de forma irregular na Europa no ano passado, cerca de 92% o fez por via marítima, nomeadamente através das três grandes rotas migratórias do Mediterrâneo: Mediterrâneo Oriental (da Turquia para a Grécia), Mediterrâneo Central (da Líbia para Itália e Malta) e Mediterrâneo Ocidental (de Marrocos para Espanha).

Mas as chegadas também foram feitas através do oceano Atlântico pela rota da África Ocidental em direção às Canárias, arquipélago espanhol situado ao largo da costa noroeste africana.

Estas travessias são feitas muitas vezes em embarcações precárias e inadequadas para tal propósito.

Sobre o caso específico das Ilhas Canárias, consideradas como parte do espaço Schengen (espaço europeu de livre circulação), as chegadas de migrantes aumentaram em 750% no ano passado, na sequência de controlos mais rígidos nas fronteiras e de interceções no Mediterrâneo por países do norte de África, segundo refere o relatório da OIM.

Ainda sobre as Canárias, a agência liderada pelo português António Vitorino destaca que pelo menos 849 vítimas mortais foram verificadas nesta rota, um valor mais de quatro vezes superior em comparação a anos anteriores.

Entre as rotas do Mediterrâneo, a Central (da Líbia para Itália e Malta) foi a mais letal no ano passado, com 984 mortes.

A OIM alerta, no entanto, que estes números podem ser ainda mais elevados, uma vez que várias dezenas de embarcações que tentam fazer estas travessias não são detetadas por radares e muitas delas acabam por desaparecer e naufragar sem registo de sobreviventes, casos que são conhecidos como “embarcações fantasmas” ou “naufrágios invisíveis”.

Em 2020, ocorreram pelo menos 19 casos de “naufrágios invisíveis” no Atlântico e no Mediterrâneo, com 571 pessoas dadas como desaparecidas, segundo os dados da OIM.

O relatório frisa que “estes casos são extremamente difíceis de detetar, quanto mais verificar” e são “mais uma indicação de que o número real de mortes em rotas marítimas para a Europa é muito maior do que o indicado pelos dados disponíveis”.

“Ninguém deveria ter de arriscar a vida para fugir da violência ou da instabilidade, ou simplesmente para procurar uma vida melhor”, disse Frank Laczko, diretor do Centro Global de Análise de Dados sobre Migração da OIM (GMDAC) em Berlim, citado num comunicado divulgado pela agência da ONU.

“Será importante nas atuais discussões entre a União Europeia (UE) e os países africanos dar prioridade a uma ação concertada para salvar vidas e acabar com esta crise de mortes em curso”, acrescentou Laczko.

Desde 2014, os dados disponíveis apontam que mais de 22 mil pessoas terão morrido nas várias rotas marítimas migratórias.

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